A ‘‘nova’’ Encíclica do Papa Leão XIV
Por Phonteboa
Cento e trinta e cinco anos depois da Encíclica Rerum Novarum – Novas Questões – do papa Leão XIII, publicada no ano de 1891, a Igreja Católica, através do papa Leão XIV, traz à tona uma nova Encíclica com orientações sobre como deve comportar os fiéis católicos diante da realidade. Não se trata simplesmente de rememorar as orientações e princípios contidos na Rerum Novarum. A Magnifica Humanitas de Leão XIV é mais que uma atualização da Rerum Novarum, e isso está claramente dito em sua introdução, quando diz, em seu parágrafo 4 “hoje não podemos simplesmente repetir os seus preciosos ensinamentos, mas devemos pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tendências do nosso tempo, em particular os progressos da técnica.” Nesse sentido, a Magnfica Humanitas representa o desejo de “entrar em diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade.” (§2)
Deste modo, o papa Leão XIV, propõe uma nova reflexão dos desafios que a humanidade apresenta para os cristãos – mas não só para eles – e insere esta reflexão como um caminho, dentro da tradição e do ensinamentos da chamada “Doutrina Social da Igreja”. E como fundamento para o diálogo, o primeiro passo é definir claramente que realidade é esta que é objeto de sua reflexão – veja os parágrafos 4,5 e 6 de Magnífica Humanitas. Não se trata de negar a inovação tecnológica, ou os avanços promovidos pela ciência, muito pelo contrário, é compreender e assumir esta realidade e com ela dialogar. E, na medida do possível, estabelecer algum critério ou princípio que possa garantir à humanidade a participação no sentido de responsabilizar-se pelos seus usos e escolhas diante desta realidade, salvaguardando sempre a dignidade da pessoa e a autodeterminação dos povos. Neste sentido, a Magnífica Humanitas, do papa Leão XIV é um apelo ético e cristão no uso tecnológico de nosso tempo. Não se trata de uma imposição, mas de uma reflexão, lúcida, corajosa e, por isso propõe, as questões: “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?”
O caminho proposto pela Magnifica Humanitas para responder a estas questões parece simplista e ingênuo, pois baseia-se na dualidade, uma vez que se apresenta a partir de duas imagens bíblicas: a torre de Babel (Gn 11) e a “Reconstrução de Jerusalém” (Ne 1, 2). Mas apenas “parece”, pois ela é simples, mas não simplista, é simples porque se trata de uma escolha: para este ou para aquele caminho. Mas não é simplista, visto que tais escolhas exigem responsabilidade, compromisso e acima de tudo, se assumir como sujeito de nossa própria história – sujeito aqui não é o indivíduo, mas a coletividade, a humanidade. E que, na perspectiva da Igreja cristã, para os cristãos, requer assumir que tal escolha considera a ação do Espírito Santo que é a própria ação de Deus a conduzir o “seu povo”. Ao propor essas duas imagens, não há ingenuidade, há uma postura consciente e deliberada – portanto, responsável – não de negar a realidade tecnológica – que não é nem bem, nem mal, nem boa, nem ruim em si mesmas – mas que podem estar a serviço da humanidade, respeitando a diversidade (de línguas, de conhecimento, de culturas, de saberes), no sentido de melhorá-la (santificá-la) ou pode estar a serviço da dominação, do controle, do aprisionamento do outro (sua condenação). (§§ 8 ao 10).
Diante desta dualidade apresentada a escolha da “nova” Encíclica do Papa é clara. É a escolha da “corresponsabilidade corajosa” onde “todos possam florescer” (§ 13) e que todos possam (re)construir juntos – cientistas e estudiosos, empresários e trabalhadores, educadores e legisladores, sociedade civil, movimentos populares e comunidades de fé. E, aqui se apresenta mais uma argumento que reforça a esta “corresponsabilidade corajosa”, a clareza de que não será um caminho fácil, cheio de incertezas, de adversidades, de tensões, mas que a responsabilidade comum (corresponsabilidade) pode enfrentar e se converter em “força criativa” (§13). Esta “força criativa”, no entanto, pressupõe alguns princípios, que são, nada mais, na menos, os princípios éticos, que na Encíclica foram traduzidos para a orientação dos cristãos pertencentes à Igreja católica, expressas através da “defesa da dignidade da pessoa, a destinação universal dos bens, da opção pelos pobres, do cuidado com a casa comum e da paz.(§14).
Delineadas as bases das orientações e reflexões, a Magnifica Humanitas aprofunda seus temas em 05 capítulos, que são por si, subsídios no diálogo proposto pelo papa para a Igreja, para os cristãos e para o diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade. Poderíamos dizer que, nesses capítulos, o papa está convocando as famílias para a reconstrução dos muros da nova “Jerusalém”, que no nosso tempo é também simbólica, principalmente se considerarmos os últimos acontecimentos na Palestina e no Estado Sionista de Israel.
Antes de encerrar este pequeno texto, que na realidade é um convite à leitura deste novo documento da Igreja Católica (leia na íntegra
https://www.vatican.va/content/leo-xiv/ pt/encyclicals/ documents/20260515-magnifica-humanitas.html#_ftnref9), faz-se necessário reafirmar que a Inteligência Artificial e todos os demais avanços tecnológicos vivenciados por nós hoje, não são tecnologias neutras, necessitam, portanto, mais do que normatizações, necessitam de criticidade e de responsabilidade em seu uso para que a dignidade humana seja preservada, cuidada e salvaguardada, independente de sua denominação religiosa.
Paz e bem!