Sono: o verdadeiro ponto de partida da saúde mental – A base invisível da tríade emocional-cognitiva-física
No último mês, tivemos duas edições nesta página em que meus colegas — um cardiologista e um cirurgião-dentista — abordaram o sono sob perspectivas complementares e consistentes, destacando seu impacto na vida da população. Seguindo meu cronograma de conteúdo para este jornal, alinhado às demandas clínicas prevalentes, o tema sono vinha confirmado como minha próxima pauta. Todos os holofotes apontando para o DESCANSO. Essa convergência de conteúdo me trouxe um questionamento: coincidência, clichê ou overdose de sono?
E, neste cenário de saúde, onipresente nos consultórios e revelador da dimensão do sofrimento das pessoas, mantenho meu roteiro com uma abordagem prática, integrativa e aplicável ao cotidiano.
Insônia na psiquiatria: causa ou efeito? A insônia na psiquiatria é vista de forma bidirecional: comumente é um sintoma de outros transtornos mentais, mas também pode ser um transtorno primário que causa ou agrava doenças psiquiátricas.
Como sintoma: ocorre em depressão, ansiedade, transtorno bipolar, gerando dificuldade em adormecer ou acordar cedo;
Como transtorno primário: mesmo sem outro transtorno psiquiátrico, fatores psicofisiológicos, genéticos ou hábitos inadequados podem gerar insônia crônica;
Ciclo bidirecional: a insônia crônica desregula o humor e aumenta risco de ansiedade e depressão, sendo seu tratamento central para melhorar sintomas gerais.
Muitos pacientes chegam com ansiedade, desânimo, irritabilidade ou dificuldade de concentração. Ao aprofundar a avaliação, um padrão se revela: o sono está desregulado — a ponta de um iceberg.
Na psiquiatria moderna, compreendemos que, ao ajustar o sono, ocorre uma reorganização direta do sistema nervoso central e das emoções (homeostase).
Por que o sono é tão decisivo? Durante o sono, o cérebro consolida o aprendizado, “filtra os excessos”, harmoniza hormônios e restaura o funcionamento mental. A privação crônica está associada a maior risco de transtornos do humor, piora da ansiedade, alterações metabólicas e prejuízo cognitivo.
Pontos clínicos que merecem atenção:
Apneia do sono/ronco: flacidez dos tecidos da boca e garganta reduz a passagem de ar, favorecendo pausas respiratórias;
Obesidade: estimula um ciclo vicioso de leptina e grelina, dificultando o sono e aumentando apetite;
Qualidade do ambiente: colchão, travesseiro e higiene da roupa de cama;
Condições respiratórias, anatômicas ou alérgicas;
Ritmo hormonal: melatonina à noite e cortisol pela manhã;
Possíveis deficiências nutricionais, como magnésio;
Desequilíbrio do sistema nervoso autônomo;
Validando boas práticas:
Horário fixo para acordar, inclusive aos fins de semana;
Evite cochilos durante o dia;
Reduza estímulos à noite (telas/luz branca);
Evite excesso alimentar e bebida alcoólica após 19:00 / cafeína após 14:00;
Exercício físico semanal — mínimo 150 minutos, preferencialmente pela manhã;
Utilize a cama apenas para dormir (não a use para estudo, leitura ou telas);
Eleve a cabeceira da cama cerca de 12 cm para refluxo e melhor respiração;
Exposição à luz natural pela manhã;
Teste ruídos brancos ou ondas delta em aplicativos (streaming).
E os remédios para dormir? Benzodiazepínicos (“zepam”) são controlados, tarja preta e não mais primeira escolha. Uso prolongado prejudica memória, humor e cria dependência. Quando necessários, devem ser usados por curto prazo (até 3 semanas).
Estratégias modernas:
Terapia cognitivo-comportamental (TCC);
Medicações mais seguras;
Neuromodulação não invasiva (estimulação magnética transcraniana).
Na próxima edição, explicarei como a neuromodulação vem transformando o tratamento do sono.
Sono reparador é necessidade biológica fundamental.
Comece pelo básico. Observe sinais de alerta ou prejuízos na saúde mental, física ou funcional diária. Não é necessário exames complexos inicialmente.
Observe, peça relato a alguém próximo ou monitore seu sono (via smartwatch ou gravação de áudio).
Se você demora para dormir, acorda várias vezes à noite, acorda cansado, depende de remédios ou percebe sono não reparador, esses sinais não podem ser ignorados. Sem tratar essa base, o tratamento estagna e o progresso do cuidado não acontece.
Dormir bem é o passo mais importante para recuperar sua qualidade de vida.
Dra. Marina Teles
CRM/MG 109.555
Psiquiatria Avançada e Individualizada
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