Diversidade não se resume à tolerância
● Presídios humanizados acolhem condenados de todas as raças, religiões e orientações sem distinção
● Modelo criado no Brasil é reconhecido internacionalmente como referência de inclusão
Valdeci Ferreira
Advogado e teólogo, é diretor do Ciema (Centro Internacional de Estudos do Método APAC) e vencedor do Prêmio Empreendedor Social 2017
A sociedade pós-moderna vive um paradoxo complexo e angustiante. Nunca se falou tanto em diversidade — de raça, religião, gênero, identidade, cultura e orientação — e, ao mesmo tempo, nunca foi tão visível a fragmentação social, polarização, intolerância e a incapacidade de conviver com o diferente. O discurso da inclusão, muitas vezes, não se traduz em práticas concretas de respeito, escuta e cooperação.
Contudo, a diversidade não é um desafio atual. O que muda, no mundo contemporâneo, é a intensidade dos conflitos. Grupos diversos buscam reconhecimento, clamam por justiça e espaço de fala — todas demandas legítimas —, mas frequentemente o debate se transforma em conflito, disputa, exclusão ou silenciamento do outro.
A diferença, que deveria enriquecer a vida em sociedade, passa a ser tratada como ameaça. O resultado é uma sociedade que convive fisicamente, a duras penas, mas não caminha junto.
Em meio a esse cenário, experiências reais de convivência harmoniosa tornam-se referências importantes e valiosas. Entre elas, destaca-se o modelo das APACs (Associações de Proteção e Assistência aos Condenados). Criadas no Brasil e hoje reconhecidas internacionalmente, as APACs administram centros de reintegração social que acolhem pessoas privadas de liberdade sem distinção de raça, cor, origem social, religião ou ausência dela, identidade de gênero, orientação sexual, tipo de crime ou tempo de condenação. Todos convivem no mesmo espaço, sob as mesmas regras, com responsabilidades compartilhadas.
O dado mais surpreendente, para muitos, é que essa convivência acontece sem o concurso de agentes penais armados. A segurança não é imposta pela força, mas construída por vínculos de afeto, pela corresponsabilidade, pela disciplina consciente e pelo respeito mútuo.
Nas APACs, pessoas com histórias, crimes e trajetórias profundamente distintas aprendem a se ver como semelhantes em humanidade, ainda que diferentes em crenças, escolhas e visões de mundo.
Os problemas e conflitos existem, como em qualquer família ou grupo humano, mas são mediados pelo diálogo restaurativo, pela escuta atenta e assertiva e por regras claras de disciplina, conduta e convivência.
Essa experiência concreta lança uma pergunta incômoda e inquietante à sociedade livre: se indivíduos marcados por traumas, rupturas e feridas profundas — familiares, sociais e morais — ainda conseguem conviver de forma respeitosa em um ambiente de restrição da liberdade, por que nós, em liberdade, temos tanta dificuldade em aceitar, acolher e conviver com o diferente?
Quanto a esse aspecto, entendemos que o problema não está na diversidade em si, mas na ausência de valores e propósitos comuns que sejam capazes de orientar a convivência.
Acreditamos que o maior legado das APACs para o debate atual seja mostrar que a verdadeira inclusão nasce da responsabilidade, diálogo e da não imposição de crenças e valores; do reconhecimento do outro como pessoa, não como rótulo.
Nesses tempos em que a sociedade parece cada vez mais fragmentada, dividida e polarizada, olhar para as APACs é lembrar que a diversidade pode ser um caminho de reconstrução e que talvez seja hora da sociedade ser livre, rever sua norma de conduta e reaprender essa lição.