Infinito
Ah, teve um dia, em que olhei tudo ao redor e achei pouco significado. Andei pelo quintal, levantei a cabeça para a copa das árvores, vi flores lindas, orquídeas, plantas coloridas, sentei num dos bancos por aqui, levantei, molhei os pés na piscina, sentei nos degraus da varanda, andei, sentei, levantei, belisquei uma comidinha, passeei o olhar por tudo e me perguntei quanto duraria. E o que seria o depois. Não temos o controle do tempo e por mais esforço que façamos para nos cuidarmos bem, não somos os donos de nossos anos. A finitude me passou pela cabeça, e sempre passa, carrego sempre no coração a certeza dessa finitude que me desperta para bem viver. Mas, naquele dia, enxerguei pouco significado. O que viria depois? Não para mim, que creio na vida eterna, mas para os que ficarão. Contemplei nossa casa, vários dos cantos dela que tanto aprecio, detalhes que me alegram, onde enxergo beleza e paz. Fiquei pensando o que seria dela. Com o tempo, envelheceria, feito eu, perderia seu encanto, deixaria de ser confortável e acolhedora, se tornaria antiquada… E… fim!
Teve um dia sim em que fiquei pensando que havia pouco significado, que o tempo do desfrute era pequeno demais, que quem ficasse aqui não saberia a história daqui e que tudo se perderia em esforço, tijolos e devaneios. Eu queria o concreto, a firmeza, o infinito… De alguma forma, eu queria ficar. E chorei. Chorei pelo esforço derramado, pela ilimitada responsabilidade, pelas horas de dedicação e luta, por sonhos que abandonei e projetos que nunca sairiam da minha cabeça, por palavras jamais ditas, pelas minhas mãos naquele momento, vazias, pelo espaço que desejava que fosse preenchido por novos risos e novas lágrimas.
Deus deve ter achado engraçado minhas orações tortas, minha infantilidade envelhecida, minha desordenada angústia, e, mais uma vez, me acolhendo, com toda sua docilidade, me permitiu acreditar que, de alguma forma, permanecerei.