Por que 93% dos motoristas ignoram o perigo real do celular?
Uma sondagem realizada pela Continental Pneus entre abril e maio de 2026 entregou o dado que resume décadas de campanhas de segurança viária sem resultado: 35% dos motoristas apontam o uso do celular ao volante como o principal risco no trânsito e, ao mesmo tempo, 93% se consideram seguros ou muito seguros ao dirigir. Não é preciso formação em psicologia cognitiva para enxergar onde está o problema.
A sequência dos fatores de risco apontados pelos respondentes fala por si: falta de atenção aparece em segundo lugar, com 19%, seguida por excesso de velocidade (17%) e comportamento de outros condutores (15%).
Condições e manutenção do veículo ficaram com apenas 4%, número que preocupa, considerando que 61% dos participantes rodam mais de 10 mil km por ano e que pneu careca ou freio negligenciado não avisam antes de falhar.
O perfil dos respondentes reforçou o recorte: 39% têm mais de 55 anos, faixa etária com maior tempo de carteira e, geralmente, maior resistência a admitir comportamento de risco próprio. Seis em cada dez afirmam dirigir mais de 200 km por semana, exposição significativa para quem subestima a manutenção preventiva.
Pneu não é commodity
Há um sinal positivo enterrado nos dados: na hora de trocar o pneu, 42% priorizam segurança e desempenho, contra apenas 8% que colocam o preço em primeiro lugar. Qualidade e durabilidade aparecem logo atrás, com 39%.
Para um mercado historicamente movido por preço de etiqueta, a virada de percepção é real, ainda que a subestimação da manutenção preventiva como fator de segurança mostre que o caminho é longo.
“O consumidor está mais atento à relação entre manutenção e preservação de vidas”, afirma Renato Siqueira, gerente de assistência técnica da Continental. O discurso é correto. O desafio é que atenção declarada em pesquisa e comportamento na rodovia são bem diferentes.
O que os números não conseguem medir
A sondagem tem limitação declarada pela própria marca: sem metodologia científica, amostra de 463 pessoas captadas no site da Continental, ou seja, público já predisposto ao tema de segurança.
Em termos estatísticos, é mais fotografia de uma bolha consciente do que radiografia do motorista médio brasileiro. O viés de seleção provavelmente infla a priorização de segurança na compra de pneus e suaviza os dados de comportamento de risco.
Mesmo assim, a contradição central, saber que celular mata e se achar um motorista exemplar, persiste em qualquer amostra de pesquisas de trânsito no Brasil.