Presos não são descartáveis
VALDECI FERREIRA
Advogado e escritor, é diretor do CIEMA – Centro Internacional de Es-tudos do Método APAC, e vencedor do Prêmio empreendedor Social do Brasil e América Latina
Vivemos em uma época marcada pela chamada cultura do descartável. Objetos são produzidos em massa, consumidos rapidamente e, quando perdem sua utilidade imediata, são jogados fora sem nenhuma reflexão sobre o impacto dessa atitude.
Essa lógica se estende, de forma preocupante, ao modo como a sociedade lida com as pessoas idosas, usuários de crack, migrantes, moradores em situação de rua, e com aqueles que cometem crimes.
Homens e mulheres são muitas vezes tratados como resíduos, marginalizados e condenados não apenas pelo erro cometido, mas a uma existência de permanente exclusão.
Os presos tornam-se objetos descartáveis, quase invisíveis, vistos como entulhos a serem jogados fora, não como seres humanos passíveis de recuperação. Essa mentalidade rude e doentia, alimenta um ciclo de violência e desumanização.
Em vez de investir em processos que possibilitem a mudança, o sistema prisional convencional reforça o estigma, isola e, em muitos casos, devolve ao convívio social indivíduos ainda mais feridos e propensos à violência, e por conseguinte, à reincidência. É como acumular lixo sem pensar em reciclagem: o problema não apenas continua, mas se agrava.
Por mais que o erro pese, a vida humana jamais pode ser considerada inútil ou descartável, afinal, o ser humano não é lixo. Cada pessoa carrega em si um dom, uma potencialidade, uma dignidade inalienável.
Comparar as pessoas privadas de liberdade a objetos a serem excluídos e jogados fora pode parecer absurdo, mas é justamente isso que ocorre na prática quando se abandona qualquer perspectiva de recuperação.
Se a sociedade trata os condenados como dejetos, o sistema prisional comum, como está estruturado, funciona como um aterro sanitário, onde corpos são empilhados e esquecidos, sem qualquer chance de reaproveitamento ou serventia.
No entanto, o lixo reciclado prova que é possível dar um novo sentido ao que parecia perdido. Plástico, vidro, alumínio, papel – todos podem ser reinseridos na cadeia produtiva, convertendo-se em algo útil e renovado. Nesse sentido, acreditamos que mesma lógica pode e deve ser aplicada ao ser humano.
É aqui que se insere o Método APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), uma proposta de execução penal baseada na valorização da pessoa, no trabalho, no estudo, na disciplina, na espiritualidade e na corresponsabilidade.
A APAC acredita que “ninguém é irrecuperável” e que, por meio de confiança, amor e oportunidade, é possível transformar “restos e dejetos” em “novas criações”.
Enquanto o sistema tradicional acumula fracassos, a APAC atua como uma verdadeira usina de reciclagem humana. Os recuperandos (como são chamados os presos) deixam de ser números para se tornarem pessoas, protagonistas do próprio processo de mudança.
Cada atividade – seja o estudo, o trabalho, as palestras de valorização humana e terapia da realidade, reflexão espiritual ou o convívio comunitário – atua como ferramenta de reaproveitamento, limpando as impurezas do passado e moldando novas formas de existir.
Assim como uma garrafa de vidro descartada pode voltar à prateleira reluzente e útil, um recuperando ou recuperanda que passa pelo método APAC, pode retornar à sociedade não como um fardo, um peso difícil de carregar, mas como um homem novo, uma mulher nova, consciente de sua responsabilidade e preparado para contribuir com a construção de uma nova sociedade.
Trata-se de um processo coletivo de sustentabilidade social. Jogar gente fora simplesmente não resolve o problema, pelo contrário, apenas acumula rejeitos sociais. O Método APAC mostra que a verdadeira solução está em acreditar no ser humano e oferecer possibilidades e ferramentas para que ele possa se reciclar e tornar-se produtivo para a sociedade.
A metáfora se completa quando observamos os resultados práticos: comunidades próximas às APACs constatam índices muito menores de reincidência, redução da violência e fortalecimento dos vínculos familiares. O Estado economiza, a sociedade ganha em segurança e os próprios recuperandos redescobrem seu valor.
Na era da cultura do descartável, é urgente lembrar que o ser humano não é lixo, e que o sistema prisional não pode se limitar a ser um depósito de vidas condenadas ao descarte e ao esquecimento.
O Método APAC é prova viva disso: ele rompe a lógica do descarte e oferece uma alternativa restauradora. Mais que devolver “expresos”, ele devolve homens novos à sociedade.