Olhar atento
Tantas vezes sinto os olhos cansados. Esses olhos que tanto perscrutam, que tanto observam, que tanto leem têm motivos para se cansarem mesmo. Sempre usei meus olhos em excesso e exigindo demais deles os tornei meus principais órgãos sensitivos. Quase não perco nada ao meu redor. Admiro a postura de estar atenta e sempre a pratico. Leio tudo que me cerca e observo tanto que às vezes consigo antecipar pensamentos alheios aos meus. Compreendo as posturas corporais que antecedem as palavras, decifro silêncios, nenhuma dissimulação me passa despercebida. Conheço a sinceridade, a maldade, me entristeço com as contradições que as mentiras dos outros me trazem. Compreendo que observar foi uma qualidade que desenvolvi ao longo dos anos.
Sempre tive um olhar contemplativo. Admiro e me alegro com todas as belezas que Deus me permite ver. Dirijo ou caminho pelas ruas da cidade observando flores, pássaros, céu, árvores, lojas que abrem e fecham, lojas que permanecem, mas principalmente pessoas. Pessoas são o alvo principal da minha curiosidade e do meu amor ou do meu desencanto. Observar as pessoas me proporciona o abrir de um leque de oportunidades de compreensão da natureza humana, o que realmente me traz produtivas reflexões, entendimento, discernimento, sabedoria. Por isso, não posso deixar que meus olhos descansem por tempo prolongado.
Sempre tive um olhar preso aos livros. Aprecio os livros que vão preenchendo as estantes da minha alma. Ler e estudar diariamente, se me cansa os olhos, envelhece a minha alma de forma tranquila e em paz. Não rejuvenesço fazendo o que faço. Estou cada vez mais compacta, densa, consciente do aprendizado que me traz a leveza, apesar da intensidade disto tudo. Escrevo em qualquer folha ou computador que me aparece, e se não tenho onde rabiscar, rascunho no meu pensamento e muitas vezes, fica somente comigo o texto que rascunhei.
Vivo algumas madrugadas pensantes, neste processo. Tantas vezes acordo cedo demais, os olhos se abrem no escuro do meu quarto e sem nada enxergar, liberto poesias, redações, palavras soltas compondo trechos que me emocionam e libertam. Meus olhos descansam, fechados ou abertos nestas madrugadas e embalo orações, sonhos e desejos. No despertar de cada dia, os olhos novamente prontos para um amanhecer de aprendizados, me convidam a continuar. E, sigo com eles, bem atentos.