O diálogo das sombras
Pode um vaso rachado conter água pura? Certamente não. A água vazaria ou se contaminaria com a sujeira da fenda. Pois bem. Se a alma de um homem é o vaso e a bondade é a água, como pode alguém que derrama o sangue de um inocente por prazer afirmar que sua alma é íntegra? A crueldade com o animal não seria a própria rachadura que denuncia a falha do caráter? Na visão socrática, o mal é frequentemente fruto da ignorância do Bem. No entanto, quando a crueldade é refinada, como no ato de empalar ou torturar – deixamos o campo da ignorância e entramos no campo da perversão. Para Schopenhauer, que ecoou seu pensamento, a compaixão é a base da moralidade. Quem é incapaz de se identificar com o sofrimento de um ser senciente (o “doguinho” Orelha) cortou o fio que o liga à humanidade. Na Perspectiva da Psicanálise: Por que jovens se unem para tal brutalidade? A psicanálise nos oferece algumas chaves sombrias: A Perversão e o Fetichismo da Dor: Diferente da psicose, o perverso sabe o que é a lei, mas decide suspendê-la para obter gozo. O animal, por ser “dócil e inofensivo”, torna-se o objeto perfeito: ele não oferece resistência física, mas sua agonia oferece o “alimento” para a pulsão de morte (Tânatos). O Efeito de Grupo (Massa): Freud explica que, em grupo, o indivíduo abdica de seu “Ideal do Eu” (sua consciência moral) em favor do líder ou da vontade do bando. O grupo dilui a culpa. O que um jovem não teria coragem de fazer sozinho, ele faz para ser aceito, transformando a barbárie em um rito de passagem macabro. Muitas vezes, esses jovens sofreram violências (físicas ou simbólicas) e, para deixarem de ser “vítimas”, tornam-se agressores cruéis, projetando no animal a fragilidade que odeiam em si mesmos. Seriam eles capazes de fazer o mesmo com um adulto? A resposta, infelizmente, tende ao sim. A diferença é apenas o risco e a conveniência. A crueldade com animais na infância /juventude é um preditor direto de violência interpessoal futura. Para torturar um cão com pregos e cortes, é preciso primeiro “desanimá-lo”, ou seja, tirar-lhe a alma e vê-lo como um objeto. Se esses jovens são capazes de desumanizar um cão, o passo para desumanizar um idoso, uma criança ou um adulto vulnerável é apenas uma questão de oportunidade. O que essa ação nos diz? Esse ato nos diz que falhamos como sociedade na transmissão da alteridade — a capacidade de reconhecer o outro como um ser que sente. Diz-nos que há um vazio existencial preenchido pelo sadismo e que a “má educação” não é apenas falta de escola, mas falta de Educação Sensível. Quem crava um prego no crânio de um ser inocente já morreu por dentro muito antes do animal. Eles não são apenas jovens “rebeldes”; são indivíduos cujo desenvolvimento ético estagnou na barbárie, onde o prazer só é sentido através do poder absoluto sobre a vida e a morte.
Daniel Pires
Psicanálise clínica