Carros brasileiros têm menor pegada de carbono do mundo, revela estudo
Um levantamento inédito da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) em parceria com a consultoria BCG revela que os veículos fabricados e utilizados no Brasil têm a menor pegada de carbono do mundo em seu ciclo completo de vida útil.
A conclusão do estudo será tema de debate na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, em Belém, que será realizada de 10 a 21 de novembro.
O relatório inédito intitulado “Caminhos da Descarbonização: a pegada de carbono no ciclo de vida do veículo” avalia as emissões de CO² ao longo de toda a vida útil de automóveis leves, caminhões e ônibus, desde a extração de matérias-primas até produção, uso e descarte, um conceito tecnicamente conhecido como “do berço ao túmulo”.
A conclusão do estudo da Anfavea é clara: os veículos produzidos e usados no Brasil partem de uma base bem mais limpa, na maioria por conta de uma matriz energética 70% renovável e do uso difundido de biocombustíveis, sobretudo o etanol.
Emissão de CO²: Carros nacionais x de outros países
Conforme o estudo divulgado pela Anfavea, um carro 100% elétrico (BEV) operando no Brasil com bateria de origem ocidental tem emissões totais de cerca de 10,8 a 11,7 toneladas CO² ao longo da vida útil, enquanto o mesmo tipo de veículo produzido e rodando na China pode chegar a 33,5 toneladas CO², ou seja, praticamente o triplo das emissões.
Em veículos a combustão, um modelo brasileiro alimentado com etanol puro (E100) registra cerca de 14 toneladas CO² em sua vida útil; carros flex médios no Brasil aparecem na faixa de 28 toneladas de CO²; já veículos equivalentes na China atingem 51 toneladas CO², e nos EUA giram em torno de 44 toneladas de CO².
Os números revelados pela Anfavea mostram que, no cálculo do ciclo completo, o veículo elétrico chinês pode emitir mais do que o elétrico usado no Brasil e até mais do que os carro a combustão movidos com etanol.
Biocombustíveis como trunfos do país
Os resultados da pesquisa, segundo a Anfavea, reforçam uma ideia prática: o etanol e outros biocombustíveis brasileiros são vetores fundamentais da descarbonização da frota em todo o planeta.
Enquanto a eletrificação avança no país, a frota de veículos flex e a escala do etanol reduzem de imediato as emissões na fase de uso, que responde por 87% a 91% das emissões dos veículos a combustão.
Para caminhões e ônibus, onde a eletrificação ainda é limitada, o ganho com bioenergia é ainda mais relevante. Em outras palavras: não basta só falar de elétrico, é preciso combinar estratégias.
“O Brasil já parte de uma pegada de carbono menor, sustentada por uma matriz elétrica renovável e décadas de experiência no uso de biocombustíveis e frota flex. O estudo qualifica este ponto de partida e mostra o potencial de redução futura ao avançar em ganhos de eficiência ao longo das diferentes etapas da cadeia produtiva e de uso, São caminhos que permitem ao país acelerar sua jornada de descarbonização automotiva e permanecer na vanguarda global”, analisa Masao Ukon, diretor executivo e sócio sênior do BCG.
O recado de quem representa a indústria
Do lado da indústria, a mensagem é pragmática: melhorias industriais, qualidade dos insumos e políticas que valorizem a produção local e os biocombustíveis são tão importantes quanto a transição para veículos eletrificados.
Como colocou o presidente da Anfavea, Igor Calvet.
“Os fabricantes vêm se esforçando há muitos anos para reduzir a pegada de carbono, tanto nos processos industriais como na eficiência dos veículos. Essa mobilização deve ser estendida para toda a produção dos insumos, o chamado ‘berço’, e também para as operações de descarte e reciclagem, que têm grande potencial de descarbonização ao estimular a renovação de frota e o aproveitamento de materiais reciclados”.
“O conjunto desses achados será a grande contribuição da Anfavea para as discussões sobre a descarbonização do setor automotivo durante a COP30 em Belém”, conclui Calvet.
Oportunidade global para o Brasil
A lição do novo estudo da Anfavea é prática: escolha de combustível, origem de produção e política industrial importam tanto quanto o “rótulo” elétrico ou a combustão.
Para fabricantes e formuladores de políticas públicas, o caminho passa por três frentes simultâneas: acelerar a eletrificação com baterias mais limpas e produção local; melhorar a eficiência e a qualidade dos biocombustíveis; e reduzir emissões na cadeia de insumos e reciclagem.
Com informações
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