Ao corredor
Quase encostada na parede do fundo de um corredor, apreciando um cafezinho, desta vez com açúcar, observo. Até chegar à sala onde eu atendo neste prédio bem localizado no centro de Itaúna, há este corredor com algumas portas, janelas de vidros que me permitem visualizar a praça principal. De vez em quando, uma porta é aberta, sai alguém que almeja um trabalho e que ali realiza seus exames admissionais. Algumas pessoas trocam algumas palavras comigo, ou meio sorrisos e vão embora, carregando seu pacotinho de sonho e esperança passos afora. Todos os funcionários daqui me conhecem e me cercam de carinho e zelo. Fico a pensar… Tantos corredores levam a tantas salas, tantos corredores guardam os passos de quem almeja algo, tantos corredores sustentam pesos de passos temerosos ou firmes.
Contemplo ao fundo a porta da minha sala, entreaberta, pois estou do lado de fora. Tantas histórias tenho guardadas no coração, tantos segredos, medos, anseios me foram revelados aqui, desde o dia em que cheguei. Tantas confidências, choros, comemorações, risos, numa sincera troca de afeto e cuidado. Sei que somos passageiros na vida uns dos outros, mas mesmo assim sendo, nossa passagem pode ser gratificante e trazer lembranças que aquecem e acariciam. Respiro fundo, abaixo a cabeça para pensar melhor, e desejo que assim seja.
Corredores! Este é branco, meio cinza, de chão lisinho. Amo mesmo suas generosas janelas. Elas me inspiram. Aprecio a torre da igreja em seu imponente sustento do relógio e do sino. Aprecio a copa das árvores e o tanto que abrigam, enfeitam e beneficiam. Observo pessoas passando, cada uma embalando, ou não, seu projeto de vida. E o corredor está lá, limpinho, claro, aguardando por aqueles que passam, repassam ou que feito eu, buscam e encontram sentido em tudo, até naquilo que parece banal ou insignificante. Observar e ressignificar têm sido meus divertimentos prediletos.
Dra. Heloisa de Sousa Matos
Médica