Carros usados sobem 83% e superam inflação dos zero-km desde 2020
O mercado automotivo brasileiro saiu da pandemia com uma conta salgada para o consumidor: os carros usados acumularam alta de 83% entre 2020 e 2025, enquanto os zero-quilômetro subiram 51,5% no mesmo período.
Os números são do IBV Auto, índice do banco BV que rastreia mensalmente a variação de preços de automóveis leves usados no país a partir de um volume expressivo de transações reais de financiamento.
Por que os carros usados mais caros puxaram o mercado?
A origem do desequilíbrio remonta à crise de semicondutores de 2020, que paralisou fábricas e gerou filas nas concessionárias. Sem zero-quilômetro disponível, o consumidor migrou para seminovos, e a demanda represada empurrou os preços para cima com força desproporcional. O movimento não se dissipou com a normalização da produção: consolidou-se como novo patamar de mercado.
A assimetria tem razão estrutural. A alta dos novos não foi acompanhada por crescimento equivalente de renda, e uma parcela crescente da população simplesmente saiu da faixa de acesso ao zero km. “O movimento inflacionário que atingiu o preço do zero-quilômetro provocou uma mudança no perfil de compra do consumidor médio”, afirma Jamil Ganan, vice-presidente de varejo do banco BV.
O reflexo aparece nos volumes. As vendas de usados saltaram mais de 40% desde 2020, segundo a Fenau-to, chegando a quase 18 milhões de veículos comercializados em 2025. Os zero-quilômetro somaram 2,5 milhões de unidades no mesmo ano, alta de 28% sobre 2020, conforme Fenabrave e Anfavea.
Quem valorizou mais, e quem perdeu terreno
Entre os modelos com maior variação positiva no período estão o Renault Clio, com alta de 57,8%, o Renault Logan (49,9%) e o Ford Focus (44,9%). No extremo oposto, o Jeep Renegade subiu apenas 1,2%, enquanto Volkswagen Nivus e Volkswagen T-Cross registraram queda de 3,5% e 5,4%, respectivamente, sinal de que SUVs compactos mais recentes enfrentam depreciação mais acentuada no mercado de usados.
A leitura de Ganan é pragmática. “O mercado de usados é enorme, com opções de modelos e faixas de preço para todos os bolsos. Mesmo com a valorização desse segmento, existem alternativas que atendem a diferentes perfis.” Para o comprador, porém, o recado prático é que a janela de barganha nesse segmento estreitou consideravelmente nos últimos cinco anos.