Sobre as emoções e ocachorro preto
Você sabia que cerca de 85% da população irá vivenciar, em algum momento da vida, uma crise moderada a grave de ansiedade ou depressão? Ou seja, em algum ponto da nossa trajetória, todos nós poderemos precisar de ajuda — e, ainda assim, muitas pessoas seguem enfrentando suas emoções sem compreendê-las plenamente.
Na vida adulta, é muito comum nos depararmos com sensações intensas que parecem difíceis de nomear. Ansiedade, por exemplo, não é apenas “nervosismo”. Ela pode se manifestar no corpo através de sudorese, dor no peito, palpitações, rosto afogueado, tontura, desconforto gastrointestinal, sensação de perda de controle e medo difuso. E quando não entendemos o que estamos sentindo, essas experiências podem se tornar ainda mais assustadoras.
Mas existe um ponto importante: nós não fomos ensinados a lidar com nossas emoções. Durante nossa formação escolar, pouco ou nada se falou sobre o que é sentir, por que sentimos e como podemos nos regular emocionalmente. Nossos pais, em sua maioria, também não tiveram acesso a esse tipo de conhecimento. Em um passado não tão distante, buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica era visto como algo negativo, muitas vezes associado a preconceitos. Assim, eles também fizeram o melhor que puderam — mesmo sem terem aprendido a cuidar de si emocionalmente.
Hoje, felizmente, esse cenário começa a mudar. A saúde mental passou a ocupar um espaço mais legítimo nas conversas, nas escolas e na sociedade. O período pós-pandemia, inclusive, trouxe uma maior vulnerabilidade emocional, mas também abriu portas para que mais pessoas reconheçam suas dores e busquem ajuda com menos resistência.
É fundamental compreender que as emoções são inerentes ao ser humano — e mais do que isso, são necessárias. Elas têm uma função adaptativa. Sentir medo ao atravessar uma avenida movimentada, por exemplo, nos mantém atentos e protege nossa vida. A tristeza, por sua vez, muitas vezes nos convida à introspecção, funcionando como um sinal de que algo precisa ser olhado com mais cuidado. É um momento de pausa, de recolhimento, que pode anteceder importantes mudanças internas.
Muitos artistas, escritores e compositores encontraram seus maiores momentos de criação após períodos difíceis. Isso nos mostra que até mesmo as emoções consideradas “negativas” têm um papel na nossa construção. O problema não está em senti-las, mas em não interpretá-las — ou em tentar ignorá-las completamente.
Nosso sistema nervoso funciona como um termômetro e também como uma bússola. Ele nos sinaliza quando algo não está bem. O ideal é aprender a escutar esses sinais ainda no início, antes que a intensidade emocional se torne difícil de manejar. Não precisamos esperar um “pedido de socorro” em forma de crise para buscar cuidado. Quanto mais cedo olhamos para nós mesmos, mais leve tende a ser o processo.
Hoje contamos com diversas abordagens de tratamento baseadas em evidência científica. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, é uma ferramenta eficaz que nos ensina a compreender e reorganizar nossos pensamentos e comportamentos. Além disso, técnicas modernas como a neuromodulação não invasiva vêm ganhando espaço como alternativas seguras e promissoras no cuidado da saúde mental.
Mas, acima de qualquer técnica, existe algo essencial: aceitar a nossa condição humana. Somos todos iguais nesse aspecto. Eu, inclusive, costumo compartilhar com meus pacientes que também já vivi momentos de sofrimento emocional. Muitos se surpreendem e perguntam: “Mas até você, sendo médica e psicóloga?”. E eu respondo: “Sim. Você já parou para pensar que um cardiologista também pode sofrer um infarto?”.
Essa é a nossa condição: humana, vulnerável e, ao mesmo tempo, potente. Estamos sempre “no meio da fila”. Em alguns momentos, alguém estará à nossa frente e poderá nos oferecer a mão. Em outros, seremos nós a ajudar quem vem atrás.
Autoconhecimento e vulnerabilidade não são sinais de fraqueza — são sinais de força. São caminhos para um equilíbrio emocional mais consistente e duradouro. Pedir ajuda é um passo importante na evolução pessoal.
A metanálise cognitiva, que nada mais é do que a capacidade de pensar sobre os próprios pensamentos, é uma habilidade que pode ser desenvolvida. E ela transforma a maneira como nos percebemos e nos posicionamos diante da vida.
Eu gostaria de conhecer você um pouco melhor. E você, consegue me ajudar a ajudá-lo? Nós podemos construir esse caminho juntos.
Como sugestão, recomendo o vídeo: “Eu tinha um cachorro preto (seu nome era depressão)” — disponível no YouTube, com legenda em português. Uma forma simples e sensível de compreender o que muitas vezes é difícil de explicar.
Cuidar da mente é um gesto de amor próprio. E quando foi mesmo você começou a perder-se de si e distanciar-se da sua própria essência?
Dra. Marina Teles
CRM/MG 109.555
Psiquiatria e Saúde Mental Humani-zada
(37) 3242.2112 | (37) 99959.2112
Clínica Plenittude – Rua Dr. José Gonçalves, 298 – Centro – Itaúna