De quem ama demais
Olho a foto que enternece o meu coração. Meus dois filhos, sobre uma boia de jacaré, destas de plástico, sorrindo e olhando para o mesmo lado, cabelos molhados, pés na água, na piscina limpinha. A casa com alguns detalhes da mureta por acabar, meu marido no fundo da foto, parece que lavando alguma coisa, como sempre cuidando… Quem será que eles olham, o que estariam pensando, tendo no rosto um sorriso meio que de vitória, meio que de travessura, não sei, mas com muita satisfação estampada nos rostos… Meu Deus, quanto vivemos nestes anos que se passaram, quanto uma foto me desperta tamanha nostalgia, um pouco de tristeza e um tanto de alegrias. Observo melhor e vejo que nem grama ainda havia em torno das árvores e no morro que sai das muretas. Ainda há um espaço sem as pedras… Ainda há o que construir. Duas bolas coloridas também dividem o espaço da piscina com eles. Quanto vivemos…
Engulo uma lágrima pensando em tudo o que foram os nossos dias. O quanto estivemos de mãos dadas construindo nossa história, com acontecimentos bons e ruins. Relembro o choro, a saudade, as despedidas, os reencontros, os questionamentos, as nossas conversas, a confiança em mim, os sonhos, enfim a luta. A esta luta chamo vida e tudo o que passamos determina o que somos hoje, tanto em nossas virtudes quanto em nossas fraquezas.
Encontrei esta foto por acaso, na arrumação anual da casa, em que reorganizo gavetas, armários e espaços. Encontrei também um porta retrato vazio e não hesitei. Agora, a foto está na sala de estudos, e contemplá-la, com tanta frequência, é uma tentativa de restaurar em mim, algo que perdi. Não sei exatamente o quê. Talvez, a juventude, talvez a inocência, talvez a admiração irrestrita dos meus filhos que lá longe me enxergavam como uma visionária. Muito aprenderam, nas escolas e na vida. Também, feito nós, sofreram distâncias, decepções, constatações do que é a realidade, dores, temores… Mas, cá estamos. Às vezes plenos, às vezes inquietos, às vezes sisudos, mas sempre estamos. Hoje, eles contam comigo e eu com eles. Aprendemos juntos, crescemos juntos, e se nossas opiniões divergem, nosso olhar não. Nosso olhar repousa em nosso bem estar comum. Somos aliados, mesmo no silêncio.
Olho para a foto, duas crianças brincando, felizes. Sei o quanto abracei, beijei, sorri, ensinei, conversei, mas olhando para a foto, penso que tudo foi ainda pouco. Meu amor transbordado era pequeno frente ao amor que todos os dias me invade. Sinto saudade, ora em paz, ora desinquieta, bem típico de quem ama demais.