Presídios humanizados são resposta ao crime organizado
Modelo usa educação, profissionalização, vínculos familiares e espiritualidade para recuperar pessoas
Avanço das facções em prisões e periferias expõe falta de oportunidade e vulnerabilidade social
Valdeci Ferreira Advogado e teólogo, é diretor do Ciema (Centro Internacional de Estudos do Método Apac) e vencedor do Prêmio Empreendedor Social 2017.
A comparação entre o modo de agir das organizações criminosas e o comportamento das hienas revela uma analogia esclarecedora sobre a dinâmica de grupos que se alimentam da vulnerabilidade e do caos, produzindo um ciclo contínuo de insegurança e destruição.
As hienas, conhecidas por agir em bandos, com astúcia, oportunismo e hierarquia rígida, exploram fragilidades do ambiente e até de seus próprios membros para garantir domínio e sobrevivência. Essa lógica guarda forte semelhança com a atuação das organizações criminosas.
No Brasil, as facções se aproveitam das fragilidades sociais, econômicas e institucionais, inserindo-se especialmente em prisões comuns e comunidades periféricas, onde a ausência do Estado, a pobreza e a falta de oportunidades facilitam o recrutamento e a submissão de jovens e adultos.
Assim como os clãs de hienas, essas organizações utilizam a violência, a intimidação e o controle territorial como instrumentos centrais de poder, funcionando como verdadeiras empresas ilícitas, com hierarquia interna e divisão de funções, sustentadas principalmente pelo tráfico de drogas e armas.
O impacto dessas organizações é profundo e devastador. O medo constante, a violência cotidiana e a sensação de impotência fragilizam o tecido social e corroem a confiança nas instituições.
Mais grave ainda, essas facções passam a atuar como uma estrutura paralela ao Estado, impondo uma “ordem” própria baseada no medo e na coerção, frequentemente percebida como mais eficiente por populações desassistidas pelo poder público.
Esse fenômeno amplia desigualdades e compromete o desenvolvimento de uma sociedade segura e justa.
Nesse cenário, as Apacs (Associações de Proteção e Assistência aos Condenados) surgem como alternativa concreta e eficaz para romper o ciclo da reincidência criminal e contribuir diretamente para a segurança pública.
Diferentemente do sistema prisional convencional — que muitas vezes fortalece as facções e a violência —, as Apacs adotam um modelo baseado na valorização humana, na disciplina, na responsabilização pessoal e no acompanhamento integral do sentenciado.
Por meio de trabalho, educação, profissionalização, fortalecimento dos vínculos familiares, acompanhamento psicológico e da espiritualidade, as Apacs criam um ambiente que enfraquece a lógica das organizações criminosas e favorece a mudança de mentalidade.
Enquanto a violação dos direitos previstos na Lei de Execução Penal e a violência institucional alimentam o crime organizado nas prisões comuns, o método Apac atua na raiz do problema, reduzindo drasticamente a reincidência criminal e os custos do sistema.
Estamos convencidos de que não há como falar de segurança pública sem um investimento maciço e permanente na recuperação dos presidiários. Assim, ao preparar o sentenciado para o retorno responsável à sociedade, as Apacs não apenas recuperam indivíduos, mas contribuem de forma efetiva para romper o ciclo da criminalidade.
Se a prevenção da reincidência é um dos maiores desafios da segurança pública brasileira, iniciativas estruturadas como as Apacs representam um caminho realista e eficiente para o enfraquecimento das organizações criminosas e para a proteção da sociedade.