Anatomia da Desilusão
A palavra “decepção” carrega em si a queda de um engano. Decepcionar-se é, rigorosamente, deixar de estar enganado. Nós nos decepcionamos não necessariamente porque o outro mudou, mas porque a imagem idealizada que construímos dele desmoronou. Socraticamente, a pergunta não é “por que o outro me decepcionou?”, mas “que fantasia eu projetei no outro que a realidade não pôde sustentar? “Para livrar-se das mágoas, é preciso devolver ao outro a parte que lhe cabe. A mágoa é o ressentimento (o ato de sentir de novo, repetidamente). Ela cessa quando aceitamos a finitude do vínculo e reconhecemos que o outro não veio ao mundo para satisfazer nossas demandas narcísicas. O luto pelo relacionamento é, fundamentalmente, o luto pela nossa onipotência ferida. Como, então, seguir adiante e construir algo mais saudável? O segredo não reside em encontrar a “pessoa certa”, mas em desenvolver uma nova postura diante da alteridade. Diferenciação (O Eu e o Outro): O próximo relacionamento será melhor se você entrar nele como uma pessoa inteira, não como uma metade em busca de fusão. É preciso aprender a solitude para não transformar o parceiro em um refém da sua carência. Limites como Respeito: Entender que o “não” é o que dá contorno ao amor. Sem limites, a entrega vira invasão ou anulação. A Troca em vez da Entrega: Substituir a ideia de “entrega total” pela ideia de “compartilhamento consciente”. Enquanto a entrega é um sacrifício de si, a partilha é um transbordamento. O aprendizado positivo das nossas decepções é a descoberta de nossa própria resiliência e a compreensão de que nossa felicidade não pode estar depositada em mãos alheias. Ao abrirmos mão do desejo de controle e da magia das expectativas irreais, o coração descansa. O próximo relacionamento será mais saudável na medida em que o amor for visto não como uma posse, mas como um encontro entre dois seres que, embora se escolham, permanecem essencialmente livres.
Daniel Pires
Psicanálise clínica