Acordo com o Tempo
Fiz um acordo com o tempo. De hoje em diante, andamos de braços dados, a passos mais lentos, apreciando tudo ao redor. Ele não judiará muito de mim, nem eu o desperdiçarei. Fiz um trato!
De minha parte, tenho cumprido fielmente o que acordei. Levanto pensando nos meus propósitos de vida, no que planejei para o dia e sigo cumprindo. Prometi que o usaria também livremente. E que nesta nossa liberdade de estarmos livres, desfrutaria dele para simplesmente viver. No ócio, desfrutaria do meu olhar contemplativo, deixaria os pensamentos soltos, usaria as palavras com sinceridade, daria deliciosas gargalhadas, dançaria… Ou ficaria, aparentemente inútil, aqui onde estou. Acordei que eu o usaria tomando sol, conversando com Deus, respirando profundamente. E, que assim, seguiríamos juntos… Não o tenho traído. Prometi que cuidaria de mim com mais delicadeza, que respeitaria meu cansaço e meus limites. Pedi a ele que me permitisse ser menina nos momentos em que eu desejasse, e que eu pudesse, em qualquer ano da vida, fazer minhas peraltices e infantilidades. Ele riu, apertou minha mão com firmeza, acariciou meu braço e acolheu meu sorriso. Compreendi que me compreendia. Cuido do tempo com carinho e zelo. Vejo-o, às vezes, querendo escapar de mim. Relembro a ele o nosso trato e prosseguimos juntos, alinhados e aliados.
Mas… ele, de vez em sempre, esquece do nosso acordo. Vejo os meus dedos das mãos, principalmente a direita, ligeiramente deformados e sei que o tempo me trai. Tantas vezes, sinto as pálpebras pesadas e sei que o tempo me trai. Sinto dores e medos e sei que o tempo, novamente, me trai. Olho no espelho e vejo claramente a ação dele sobre mim, mas sigo o amando, pois preciso dele. Preciso do tempo, de todo o tempo que me for possível ter. Tenho muitos sonhos, muitos livros para ler, projetos ainda invadem meu ser, projetos de ser. Preciso desfrutá-lo, preciso dele ao meu lado, juntinho de mim, e preciso que ele seja caridoso, infinitamente divino e humano.
Sigo com a minha parte do nosso trato em mente, lembrando ao tempo que cumpra o que me prometeu, em nosso acordo de paz.